quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O homem que encheu a cabeça de vento

Sua mãe certa vez lhe dissera, entre pedaços de cebola que picava para o arroz que nunca se aprontava pois a mãe pobre coitada entre comida e criançada jamais conseguiu terminar sequer a louça, pois bem, a mãe lhe disse com cheiro de tempero sua cabeça já tem vento demais qualquer dia destes vai subir pra lua pare com tanta bobage muleque. Pois bem que o menino sentiu-se lisonjeado por nem mesmo ser aspirante à astronauta e já poder sair por aí procurando métodos para se subir ao lugar onde julio cesar e dante eram apenas nomes de buracos. De pouco em pouco foi ele mesmo lhe soprando a cabeça ou abrindo os ouvidos em dias de ventania e sentia-se muitíssimo aliviado pensando na lua: em seus buracos com nomes de gente importante da história e em sua cor e no seu tamanho e em quantos dias passaria ali nela. e de sopro em sopro antes subisse um pouco o corpo apenas lhes foram embora os pensamentos e apesar da cabeça meio inchada não tinha lá ar de louco só que quando lhe diziam olá lhe respondia há pássaros que vivem em outros lugares que não árvores ou talvez pedi a vaidade que sentasse à mesa. Então eis que num belo dia disse algo que tomaram atravessado sem entender pois apesar de sua cabeça inchada a aparência de louco era mínima e lhe prometeram que iria sim ao céu ver a lua.
O vento enfumaçado disparado pelo atravessado tãopouco entrou na cabeça do homem da cabeça cheia de vento, mas colocou bala no seu peito e eis que o homem de cabeça de vento sem vento nem tento foi mesmo para a lua, fechou os olhos e quando os abriu foi apenas uma imensidão azul que viu.

Sobre a cor

Há de se dizer que foi muito bem pensada sobre ela, quase que o sexismo não a permitiu - afinal a intenção não é melar cuecas, mas refletiu ele que traria, assim, uma certa calma, deixando um pouco de lado a alegria sobressalente atrás, sem ignorá-la, apenas dispersando - na um pouco.

às mãos atadas

O mundo perfeito é feito de pessoas que jamais brigam, não conhecem o rancor. Ele é suave e não há nada no mundo perfeito que desatine. E todos conversam em minunciosas partituras de sinfonias minimalistas, as diferanças, sutis, é que se sobressaem, sem deselegâncias. Os corpos não se abraçam, dançam.

Há milhares de maneiras de se ver o mundo, mas posso dizer que o meu é perfeito pelas pessoas que carrego. Elas brigam,  exageram e sempre desafinam, mas há, em sua presença, algo que meu coração conhece e desconhece e bate e muito e corre então, em sua presença, em minhas veias, um prazer, quase nostálgico, quase entediado de ser.